Tem gente que faz bem em criticar ABA. E tem gente que faz mal.
Vou explicar a diferença.
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Análise do ComportamentoPh.D., BCBA-D · Analista do Comportamento
Psicólogo, professor e analista do comportamento. Atua na clínica, na supervisão de profissionais e na pesquisa em Análise do Comportamento Aplicada, no Brasil e nos Estados Unidos.
Possui certificação internacional como Board Certified Behavior Analyst em nível de doutorado (BCBA-D, certificação #1-20-46049) e atua como psicólogo, professor e analista do comportamento.
Doutorado e mestrado em Psicologia Experimental, com concentração em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), pela Universidade Federal do Pará. Graduação em Psicologia pelo Centro Universitário Tiradentes.
Pós-doutorado no Munroe-Meyer Institute, vinculado ao University of Nebraska Medical Center (UNMC), onde também foi professor assistente entre 2022 e 2024.

Da graduação ao pós-doutorado e à docência, no Brasil e nos Estados Unidos.
O que já foi construído em ciência, ensino, supervisão e atuação, reunido em um só lugar.
Serviços de supervisão, treinamento, consultoria, pesquisa e ensino, em contextos clínicos e acadêmicos.
artigos, capítulos e materiais educacionais.
Produz artigos revisados por pares e capítulos de livros, e atua como editor associado e revisor ad-hoc em publicações de Análise do Comportamento.

“Triunfar sobre a natureza e sobre si mesmo, sim. Mas sobre os outros nunca.”
Para consultoria, supervisão, formação ou palestras, escreva contando o contexto e o objetivo.
admin@adrianobarboza.comTextos sobre análise do comportamento, prática clínica, ética e formação, escritos para este espaço.
Vou explicar a diferença.
Ler texto →Tem gente que faz bem em criticar ABA. E tem gente que faz mal. E nós precisamos entender a função de cada um. E não, entender essa função não começa com a nossa busca por autodefesa.
Algumas críticas feitas à ABA vêm de experiências reais. Por exemplo, ao longo dos anos, nós temos visto cada vez mais pessoas autistas descrevendo eventos traumáticos que viveram sob o rótulo de ABA. Ao mesmo tempo, há pessoas que se aproveitam desse terreno delicado para, em vez de lutar por justiça para clientes e suas famílias, obter benefícios somente para si. Um exemplo disso é o constante aparecimento de “soluções” oferecidas sem base científica, por exemplo nas redes sociais. E enquanto tentamos lutar especialmente contra estas últimas, deixamos de discutir algo ainda mais relevante. Esse algo mais relevante, acredito eu, não é a crítica externa. É o que a área permite que aconteça dentro de si mesma.
O ponto mais difícil dessa equação é que sim, algumas coisas feitas em nome da ABA causaram dano real. McGill e Robinson (2021), por exemplo, falam sobre adultos autistas descrevendo, décadas depois, o que foi exigido deles em nome do tratamento. E os relatos feitos por essas pessoas são de sofrimento, que nunca poderá ser apagado pelo simples argumento de “o que você fez não era ABA”. E não, não existe uma “nova ABA”! Se você insiste no argumento de que existe uma nova ABA, você está desconsiderando décadas de construção científica. A medicina evoluiu, e nem por isso nós dizemos que existe uma nova medicina, e jogamos a medicina tradicional no lixo. E se você usa esse tipo de resposta para invalidar o sofrimento de uma família ou para vender o seu curso, você precisa se perguntar se você não está sendo parte do problema.
Diante desses exemplos, o que eu menos vejo profissionais capacitados da nossa área perguntando é “o que, exatamente, causou aquele dano?”
Foi a Análise do Comportamento? Seus princípios? Seu referencial teórico? Ou foi algo que se passou por ABA, praticado sem supervisão rigorosa, sem formação de qualidade, sem compromisso real com a autonomia do cliente, num território de baixo letramento científico, sem fiscalização devida para coibir esse tipo de problema?
Será que o chamado “mercado” poderia explicar onde está o problema?
No Brasil, por exemplo, você pode abrir uma clínica, contratar pessoas sem certificação específica, chamar o que elas fazem de ABA, cobrar planos de saúde e famílias, e não sofrer consequência formal alguma. Não porque a ciência permita. Porque não há regulação que o impeça.
Não existem consequências sistemáticas para quem causa danos às famílias, o que acaba possibilitando o estabelecimento de contingências reforçadoras para os que o fazem. Esses profissionais continuam recebendo dinheiro, mesmo que não haja controle sobre a qualidade do que fazem.
O resultado disso tudo é que boa parte do que é chamado de ABA hoje não corresponde ao que a literatura define como ABA. As sete dimensões descritas por Baer, Wolf e Risley em 1968 (aplicada, comportamental, analítica, tecnológica, conceitualmente sistemática, eficaz e generalizável) não aparecem na prática cotidiana de muitos dos serviços que usam esse nome. Se a maioria das pessoas que entra em contato com “ABA” está acessando uma versão corrompida da prática, então a maioria da percepção pública sobre ABA é construída a partir dessa versão. Isso inclui a percepção de quem sofreu. E de quem você acha que é a responsabilidade por tudo isso?
Chazin e colaboradores (2024) consultaram adultos autistas sobre quais metas e procedimentos sugeridos por profissionais consideravam aceitáveis ou não. As mais rejeitadas foram metas de mascaramento (como contato visual forçado e supressão de comportamentos autoestimulatórios - acreditem, isso ainda acontece!) e as mais aceitas foram intervenções baseadas em antecedentes, reforçamento e autogestão. Se nós olharmos para as diretrizes éticas internacionais, e as maiores evidências científicas da nossa área, elas confirmam que as práticas que devem ser implementadas por analistas do comportamento são também aceitas pela comunidade autista. O problema é que várias pessoas ainda acessam práticas inaceitáveis, sob o rótulo de “ABA”.
O que a comunidade autista rejeita, quando consultada de forma direta, não é intervenção em si, mas sim a intervenção que parte do pressuposto de que o autismo é um defeito a ser eliminado. E sem treinamento e supervisão adequados, profissionais continuam implementando condutas capacitistas em sua prática. E sem regulamentação dessas práticas, as chances de isso acontecer são ainda maiores.
Mathur, Renz e Tarbox (2024) argumentaram que a ABA pode (e deve) ser praticada dentro de um referencial de afirmação da neurodiversidade. Escutar a comunidade autista com humildade faz parte, inclusive, desse rigor científico pelo qual a Análise do Comportamento tanto preza. Porém, isso perpassa também o nosso exercício constante de transferir de forma compreensível os conceitos que usamos na nossa área, inclusive deixando jargões de lado, quando necessário. Critchfield e colaboradores (2017) relatam que o jargão técnico da análise do comportamento provoca reações emocionais negativas em quem não conhece a área. E essas reações se estendem à área como um todo quando não conseguimos comunicar o que cada um desses termos realmente é. Ser um bom analista do comportamento não tem nada a ver com saber todos os termos técnicos. Saber quando (e como) usar termos técnicos, mas também termos leigos (para que a nossa ciência seja acessível a outros) é, verdadeiramente, a maior prova de competência e relevância social do trabalho que exercemos. Comunicar bem passa a ser uma questão de saúde pública, porque o terreno em que a gente pisa é frágil. E entender o tamanho desse terreno importa.
Há variáveis que escapam ao nosso controle como área e que tornam isso ainda mais urgente. A maior delas é o problema do letramento científico da nossa população. No PISA 2022, mais da metade dos estudantes brasileiros de 15 anos ficou abaixo do nível mínimo de proficiência em ciências (INEP, 2023). E as pesquisas de percepção pública revelam que o brasileiro confia muito na ciência, mas acessa pouquíssima informação científica de qualidade, sendo que esse acesso diminui ainda mais conforme cai a escolaridade (CGEE, 2019). Confiança alta com letramento baixo é a combinação mais explorável que existe.
Por quê? Porque quando alguém confia na figura do “especialista”, mas não tem critérios para distinguir o especialista de verdade do impostor, qualquer um pode sequestrar essa autoridade. E é exatamente isso que acontece com a ABA. A família que procura ajuda para o filho autista raramente tem como avaliar se aquela clínica aplica as sete dimensões ou se está apenas usando a sigla na fachada (uma recomendação no caminho disso é o volume 1 das diretrizes publicadas por mim e outros colegas da diretoria da Associação Nacional de Profissionais Analistas do Comportamento - ANPAC, recentemente). A família possivelmente não pergunta sobre supervisão e formação por descuido, mas porque ninguém nunca lhe ensinou que essas eram as perguntas certas. Letramento científico é justamente isso: é saber fazer três perguntas diante de qualquer promessa:
E é nesse vácuo que o charlatão se instala. Ele não vende, em primeiro lugar, uma mentira: ele vende uma resposta fácil para uma angústia verdadeira (por exemplo, a de um pai ou de uma mãe desesperados por ajuda), num lugar onde quase ninguém aprendeu a desconfiar. Enquanto o letramento científico for privilégio de poucos, e não um direito de todos, vão sobrar famílias entregues a quem cobra caro por uma versão corrompida da prática. E vai sobrar, para a ABA, a fama de ser algo que ela, de fato, nunca foi.
A captura interna da ABA por interesses financeiros é a consequência esperada de um território sem regulação, onde o reforço imediato do lucro compete com o controle por regras éticas e científicas, e com frequência vence. Eu vejo profissionais, inclusive certificados, pisando em territórios delicados, localizados na linha cinza entre o que é ético e o que não é ético, simplesmente porque neles está uma oportunidade de ganhar dinheiro. Podemos observar vários exemplos disso, inclusive, em estratégias de marketing em redes sociais.
A crítica que vem da comunidade autista é legítima e merece ser escutada sem defensividade. Ao mesmo tempo, boa parte da população continua a ter acesso a uma intervenção rotulada como ABA, mas que é fornecida por pessoas mal preparadas e/ou com interesses maléficos que utilizam o código de ética somente quando lhes convém. Enquanto o campo tratar essas duas coisas como incompatíveis, o debate vai continuar andando em círculos.
E isso tem uma função.
Se você atua na área: a pergunta não é “você concorda com as críticas à ABA?” Essa é a fácil. A difícil é outra: o que você faz quando vê alguém chamar de ABA algo que não é?
Quem faz bem em criticar ABA é quem olha para o dano real e pergunta o que o causou.
Quem faz mal é quem usa esse dano para outra coisa.
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Adriano Barboza, Ph.D., BCBA-D
Behavior AnalysisPh.D., BCBA-D · Behavior Analyst
Psychologist, professor, and behavior analyst. He works in clinical practice, professional supervision, and research in Applied Behavior Analysis, in Brazil and the United States.
He holds international certification as a Board Certified Behavior Analyst at the doctoral level (BCBA-D, certification #1-20-46049) and works as a psychologist, professor, and behavior analyst.
Doctorate and master's in Experimental Psychology, concentrating in Applied Behavior Analysis (ABA), from the Federal University of Pará. Bachelor's in Psychology from Centro Universitário Tiradentes.
Postdoctoral fellowship at the Munroe-Meyer Institute, affiliated with the University of Nebraska Medical Center (UNMC), where he also served as an assistant professor between 2022 and 2024.

From undergraduate studies to postdoctoral training and teaching, in Brazil and the United States.
What has been built in science, teaching, supervision, and practice, gathered in one place.
Supervision, training, consulting, research, and teaching services, in clinical and academic settings.
articles, chapters, and educational materials.
He publishes peer-reviewed articles and book chapters, and serves as associate editor and ad-hoc reviewer in Behavior Analysis publications.

“To triumph over nature and over oneself, yes. But over others, never.”
For consulting, supervision, training, or talks, write describing the context and the goal.
admin@adrianobarboza.comWritings on behavior analysis, clinical practice, ethics, and training, made for this space.
Let me explain the difference.
Read →Some people are right to criticize ABA. And some are wrong. And we need to understand the function of each one. And no, understanding that function does not begin with our search for self-defense.
Some criticisms of ABA come from real experiences. Over the years, for instance, we have seen more and more autistic people describing traumatic events they lived through under the label of ABA. At the same time, there are people who take advantage of this delicate terrain to obtain benefits only for themselves, instead of fighting for justice for clients and their families. One example is the constant appearance of “solutions” offered with no scientific basis, for instance on social media. And while we try above all to fight the latter, we stop discussing something even more relevant. That more relevant thing, I believe, is not external criticism. It is what the field allows to happen within itself.
The hardest part of this equation is that yes, some things done in the name of ABA caused real harm. McGill and Robinson (2021), for example, discuss autistic adults describing, decades later, what was demanded of them in the name of treatment. And their accounts are of suffering that can never be erased by the simple argument that “what you did wasn’t ABA.” And no, there is no “new ABA”! If you insist on the argument that there is a new ABA, you are disregarding decades of scientific construction. Medicine has evolved, and we do not therefore say there is a new medicine and throw traditional medicine in the trash. And if you use this kind of response to invalidate a family’s suffering or to sell your course, you need to ask yourself whether you are not part of the problem.
Faced with these examples, the question I least often see qualified professionals in our field ask is: “what, exactly, caused that harm?”
Was it Behavior Analysis? Its principles? Its theoretical framework? Or was it something passed off as ABA, practiced without rigorous supervision, without quality training, without real commitment to the client’s autonomy, in a territory of low scientific literacy, without proper oversight to curb this kind of problem?
Could the so-called “market” explain where the problem lies?
In Brazil, for example, you can open a clinic, hire people without specific certification, call what they do ABA, bill health plans and families, and face no formal consequence whatsoever. Not because science permits it. Because there is no regulation to prevent it.
There are no systematic consequences for those who harm families, which ends up enabling reinforcing contingencies for those who do so. These professionals keep receiving money, even though there is no control over the quality of what they do.
The result of all this is that much of what is called ABA today does not correspond to what the literature defines as ABA. The seven dimensions described by Baer, Wolf, and Risley in 1968 (applied, behavioral, analytic, technological, conceptually systematic, effective, and generalizable) do not appear in the everyday practice of many of the services that use the name. If most people who come into contact with “ABA” are accessing a corrupted version of the practice, then most of the public perception of ABA is built from that version. This includes the perception of those who suffered. And whose responsibility do you think all of this is?
Chazin and colleagues (2024) consulted autistic adults about which goals and procedures suggested by professionals they considered acceptable or not. The most rejected were masking goals (such as forced eye contact and the suppression of self-stimulatory behaviors — believe me, this still happens!), and the most accepted were interventions based on antecedents, reinforcement, and self-management. If we look at international ethical guidelines and the strongest scientific evidence in our field, they confirm that the practices that should be implemented by behavior analysts are also accepted by the autistic community. The problem is that many people still access unacceptable practices under the label of “ABA.”
What the autistic community rejects, when consulted directly, is not intervention itself, but intervention that starts from the assumption that autism is a defect to be eliminated. And without adequate training and supervision, professionals keep implementing ableist practices in their work. And without regulation of these practices, the chances of this happening are even greater.
Mathur, Renz, and Tarbox (2024) argued that ABA can (and should) be practiced within a neurodiversity-affirming framework. Listening to the autistic community with humility is, in fact, part of the very scientific rigor that Behavior Analysis so values. But this also runs through our constant effort to convey the concepts we use in an understandable way, including setting jargon aside when necessary. Critchfield and colleagues (2017) report that the technical jargon of behavior analysis provokes negative emotional reactions in those unfamiliar with the field. And those reactions extend to the field as a whole when we fail to communicate what each of these terms really is. Being a good behavior analyst has nothing to do with knowing every technical term. Knowing when (and how) to use technical terms, but also lay terms (so that our science is accessible to others), is truly the greatest proof of competence and social relevance of the work we do. Communicating well becomes a matter of public health, because the ground we walk on is fragile. And understanding the size of that ground matters.
There are variables beyond our control as a field that make this even more urgent. The greatest of them is the problem of our population’s scientific literacy. In PISA 2022, more than half of Brazilian 15-year-old students fell below the minimum proficiency level in science (INEP, 2023). And public-perception surveys reveal that Brazilians trust science greatly but access very little quality scientific information, with that access decreasing even further as schooling falls (CGEE, 2019). High trust with low literacy is the most exploitable combination there is.
Why? Because when someone trusts the figure of the “expert” but has no criteria to distinguish the real expert from the impostor, anyone can hijack that authority. And that is exactly what happens with ABA. The family seeking help for their autistic child rarely has a way to assess whether that clinic applies the seven dimensions or is merely using the acronym on the storefront (one recommendation along these lines is Volume 1 of the guidelines recently published by me and other colleagues on the board of the National Association of Professional Behavior Analysts — ANPAC). The family probably does not ask about supervision and training out of carelessness, but because no one ever taught them that these were the right questions. Scientific literacy is exactly this: knowing to ask three questions in the face of any promise:
And it is in this vacuum that the charlatan settles in. First and foremost, he does not sell a lie: he sells an easy answer to a genuine anguish (for example, that of a father or mother desperate for help), in a place where almost no one has learned to be skeptical. As long as scientific literacy is a privilege of the few and not a right of all, there will be families left to those who charge dearly for a corrupted version of the practice. And ABA will be left with the reputation of being something that it, in fact, never was.
The internal capture of ABA by financial interests is the expected consequence of an unregulated territory, where the immediate reinforcement of profit competes with control by ethical and scientific rules — and frequently wins. I see professionals, including certified ones, stepping into delicate territories located on the gray line between what is and is not ethical, simply because there lies an opportunity to make money. We can observe several examples of this, including in social-media marketing strategies.
The criticism coming from the autistic community is legitimate and deserves to be heard without defensiveness. At the same time, much of the population continues to access an intervention labeled as ABA but delivered by people who are poorly prepared and/or have harmful interests, who use the ethics code only when it suits them. As long as the field treats these two things as incompatible, the debate will keep going in circles.
And that has a function.
If you work in the field: the question is not “do you agree with the criticisms of ABA?” That’s the easy one. The hard one is different: what do you do when you see someone call something ABA that isn’t?
Those who are right to criticize ABA are the ones who look at real harm and ask what caused it.
Those who are wrong are the ones who use that harm for something else.
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Adriano Barboza, Ph.D., BCBA-D